sábado, 10 de novembro de 2012

Vento

É a árvore que balança suas folhas num desastroso balé, é o jornal voando pela calçada, é a moça que passa segurando o vestido.
A sensação de um sopro gostoso invadindo nosso corpo, nossa vida, nossa alma, trazendo recordações de outras ventanias, trazendo lembranças boas como aquele sopro de felicidade que nos toma conta.
Pensar nas pessoas que nos são queridas, conhecidas ou não. O que estariam fazendo neste momento? Os passeios em dias frescos pela cidade, descobrindo coisas que não vemos em dias comuns, coisas simples, importantes, que passam despercebidas na correria do dia a dia.
É a magia do fim de semana, do feriado, das férias, de podermos olhar as plantas com seu suave balanço num ritmo calmo e mágico. Ouvir o som que elas produzem ao serem acariciadas e envolvidas pelo vento.
Olho para baixo e vejo uma formiga perdida num degrau de escada, tão perdida como um grão de poeira ao vento.
Poder invadir misteriosamente aquele outro mundo, que na verdade faz parte do nosso grande mundo. É como se o vento nos mostrasse tudo isso que não vemos por pura falta de tempo. Como se ele despisse a cidade, revelando toda a sua intimidade.
Existem alguns dias que temos vontade de guardá-los em uma garrafa e ir abrindo aos poucos, para saboreá-los com muita calma, sem pressa de viver.
Autoria de Alessandra Mourão

sábado, 25 de agosto de 2012

A história se repete ou Quem é irracional?

1876. Período de escravidão no Brasil. Fazenda Santa Helena. O sol ainda não surgiu e ele já está acordado. Começa mais um dia de trabalho. O calor é forte, a água escassa, mas ele continua a labuta diária.
Hora do almoço. Recebe uma papa mal cheirosa. Come com vontade em qualquer canto, até pelo chão sujo.
De volta ao trabalho. O sol escaldante não dá trégua. Calor, muito calor. O cansaço toma conta do seu corpo, agora já mais fraco. Uma parada para respirar. Ouve-se o barulho do chicote no seu lombo. Mais uma ou duas vezes e começa a sangrar. Logo as moscas chegarão.
De volta ao trabalho exaustivo. Longas jornadas ininterruptas. Tudo por um punhado de comida.
A história se repete
Época atual. Cidade do Rio de Janeiro. O sol ainda não surgiu e ele já está acordado. Começa mais um dia de trabalho.
Latas de alumínio, papelão, plástico, vidro. Se tiver sorte poderá achar ferro ou cobre. Todos esses materiais são vendidos e reciclados.
O sol brilha imponente no céu, verão, calor forte. Hora do almoço. É a primeira refeição que entra no seu estômago hoje. Pouca quantidade, fome voraz.
De volta ao trabalho. Ele já andou vários quilômetros. Tem muita coisa para carregar, mas ele ainda vai levar mais. O calor já aumentou muito nessa altura da tarde. O sol parece torrar os seus miolos, a água é escassa.
Uma parada para respirar. Ouve-se o barulho do chicote. Na mesma hora, Tito, o cavalo, com as patas trêmulas de exaustão, continua puxando a charrete carregada de sucata. Trabalhando o dia todo em troca de comida. Ele não reclama, não xinga, não rouba, não mata o seu semelhante. Merece dignidade e respeito.
Quem é irracional?
Autoria de Alessandra Mourão

sábado, 11 de agosto de 2012

Louco

Louco. Todos são
Todo mundo já chamou alguém de louco. Fazemos isso, mas no fundo, sabemos que não são. É uma maneira de dizer que o outro fez algo diferente, fora dos padrões, além do esperado. Geralmente, são coisas ruins. Ruins para a gente, para o louco, talvez não.
Existem pessoas de todos os tipos: sãs, neuróticas, saudáveis, doentes, honestas, desonestas. Essas pessoas não convivem com a gente? Quem disse? Pode ter certeza que estão por aí e nem percebemos.
O louco não tem coerência. Mas algum louco deveria ter? Conversas sem sentido jogadas ao vento. Alguém conversa com sentido nesse mundo? Comecem a reparar nas conversas dos outros ao celular. E até nas suas. E um tal de falar que está num lugar e, na verdade, está em outro; que já vai chegar e ainda falta muito para o destino final; que ficou preso no engarrafamento, contudo, milagrosamente, o trânsito está livre.
Ouvimos por aí as maiores barbaridades, a sociedade já até estipulou que essas tais barbaridades são normais. Ah, então tá.
Ninguém gosta de conversar com um louco, já que ninguém considera a si mesmo como louco e logo não há uma reciprocidade com o tal do louco. Que loucura! A conversa do louco também não bate com a do seu interlocutor. Logo é cada um falando de um assunto diferente. Mas espera aí! Briga de casal não é assim? O que? Não é só quando brigam, não?
Um louco exaspera a verdade. Ele a coloca para fora aos jorros, sem se importar se você quer ouvi-la ou não. Ele não está nem aí, nem aqui e, se bobear, nem lá. Muitas dessas verdades ninguém quer ouvir, algumas estão bem na nossa cara, são até necessárias, mas todos fingem que não as veem.
Todos têm um pouco de louco, um dia de loucura, de sair da rotina, das regras impostas pela sociedade, de fazer diferente pelo menos uma vez. Loucura também pode ser sinônimo de uma coisa maravilhosa. Coisa louca, mas num sentido bom. Aí todo mundo quer. Espertinhos, não!?
No fundo você acaba se perguntando: quem sou eu? quem é você? e quem somos nós? Que papo louco!
Louco. Todos não são.
Autoria de Alessandra Mourão

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Telefonema

Eu já havia colocado esse texto anos antes, aqui no blog, mas o blogspot apagou várias postagens minhas, então estou colocando novamente.
Telefonema
Eduardo – Alô! Oi, sou eu de novo.
Regina – A ligação caiu e...
Eduardo – Onde paramos?
Regina – Estávamos falando que...
Eduardo – Sim, sim, já tem 3 anos. É um tempinho legal, não acha?
Regina – Acho, mas...
Eduardo – Afinal, muita coisa acontece em 3 anos. Se você tivesse ficado grávida, a criança já estaria andando e tal. O tempo passa muito rápido. Você concorda?
Regina – Passa sim, agora...
Eduardo – Nem acredito, parece que tô sonhando.
Regina – Olha, não é um sonho, eu...
Eduardo – Tem certeza de que não é sonho? Podemos estar dormindo nesse exato momento.
Regina – Tenho certeza absoluta.
Eduardo – Absoluta?
Regina – Absoluta.
Eduardo – Ah, sabe tô tão emocionado. Se desse pra ver meu rosto pelo telefone, você veria as lágrimas nos meus olhos.
Regina – Imagino, eu...
Eduardo – Está prestes a se tornar realidade. Isso é bom, né?
Regina – Muito bom, mas vamos...
Eduardo – Acho que hoje é o dia mais feliz da minha vida. E você faz parte dele. São muito bons esses momentos felizes. Você lembra de algum momento assim da sua vida?
Regina – Lembro de alguns...
Eduardo – Eu lembro quando fui promovido no meu primeiro emprego. Fiquei seis meses esperando essa promoção. Foi uma satisfação enorme, igual a que tô sentindo agora. Você está emocionada?
Regina – Não sou de ferro, também fico emocionada.
Eduardo – Três anos! Foram três anos. Parece que foi ontem, ainda me lembro muito bem do primeiro dia. Era o final do campeonato.
Regina – Vocês homens associam tudo ao futebol.
Eduardo – Não lembra do primeiro dia?
Regina – Lembro sim, era um domingo, eu trabalhei...
Eduardo – Você lembra! Sabia! Que lindo. Fiquei emocionado de novo. Vou chorar.
Regina – Não, por favor...
Eduardo – Mas eu tô sentimental hoje, alegre, feliz, sei lá, droga. Tem alguma palavra que signifique mais do que alegre, do que feliz?
Regina – Radiante.
Eduardo – Estou radiante nesse dia histórico. É um dia histórico, né? Finalmente! Obrigado por fazer parte disso.
Regina – Imagina...
Eduardo – Modéstia?
Regina – Mas...
Eduardo – Três anos, nossa. Já é hora mesmo. Quando eu tô feliz, acabo falando demais. Vou me controlar, prometo. Agora fala você. Fala, vai.
Regina – Sim senhor, obrigado por manter contato conosco. Só um momento. Vou estar transferindo a sua ligação para o gerente geral. Por favor aguarde na linha.
TU TU TU TU TU
Eduardo – Ih, caiu a ligação. Não!!
Autoria de Alessandra Mourão

domingo, 24 de junho de 2012

Livros de Mão em Mão

O Projeto Livros de Mão em Mão tem como objetivo estimular a leitura em crianças, jovens e adultos.
Livros são deixados em locais públicos e, quem os encontra, após a leitura, deve repassá-los. Com essa circulação, espera-se atingir pessoas de diferentes níveis de escolaridade, valorizando a importância da leitura.
Você também pode ajudar, baixe o informativo e a ficha de controle, cole num livro que tenha em casa e deixe-o ir de Mão em Mão. Ele não precisa ser novo e pode ser sobre qualquer assunto. O importante é não deixar a ideia morrer e beneficiar o maior número de pessoas.
Se você quiser contribuir com esse projeto entre em contato. Sua contribuição será muito bem-vinda.
Baixe o informativo que será colado no início do livro. Ele explica o que é o projeto e como proceder. Informativo
Baixe a ficha de controle que será colada no final do livro. Através dela podemos ver por quais cidades o livro passou, trocar e-mails com algumas pessoas que já o leram e até deixar uma mensagem para os próximos leitores. Ficha de Controle

sábado, 23 de junho de 2012

O menino do dedo verde

A primeira vez que li O Menino do Dedo Verde, tinha por volta de 11 anos e foi para um trabalho da aula de Português. Fomos até assistir a peça no Teatro Princesa Isabel, aqui no Rio de Janeiro.
Tempos depois, em 2010, tive o prazer de reler essa maravilha, pois o musical que escrevia para a apresentação de final de ano da escola em que trabalho, era baseado nele.
A história foi escrita em 1957 pelo francês Maurice Druon e ainda está atual nessa época em que as pessoas se preocupam cada vez mais com questões ambientais.
Tistu é um menino especial, filho do Senhor Papai e de Dona Mamãe, mora na cidade de Mirapólvora. Pouco tempo depois que entrou na escola foi expulso, pois dormia nas aulas.
Sua família, então, decide que sua educação será na prática, vivenciando as coisas. Seu primeiro professor é o Senhor Bigode, o jardineiro da casa. Foi aí que Tistu descobriu que tinha o dedo verde. Onde ele encostava o seu polegar, nasciam plantas e flores.
Separei algumas frases interessantes do livro. Quem ainda não leu, não deixe de fazê-lo.
“Em que você está pensando Tistu? – perguntou-lhe um dia Dona Mamãe. Tistu respondeu: - Estou pensando que o mundo podia ser bem melhor do que é.”
“Tistu teve a impressão de que o sol perdia o seu brilho, o prado se tornava escuro e o ar difícil de respirar. São os sinais de um incômodo que as pessoas grandes pensam que só elas sentem, mas que as pessoinhas da idade de Tistu sentem também.”
“O Sr. Papai se lembrou das palavras do Sr. Trovões: A gente não pode se opor às forças da natureza. É claro que nada podemos contra essas forças, refletia Sr. Papai, mas podemos pô-las a nosso serviço.”
“Tistu pôs o chapéu de palha para ir à aula de jardim. O Senhor Papai havia julgado melhor começar por aí. Uma lição de jardim, é uma lição de terra, essa terra que caminhamos, que produz os legumes que comemos e o capim com que os animais se alimentam.”
“Aprendi que a medicina não pode quase nada contra um coração muito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?”
“Quando os grandes falam em voz alta, as crianças não os ouvem, mas quando as pessoas grandes começam a falar em voz baixa e a dizer segredos, logo os meninos apuram o ouvido e procuram escutar justamente aquilo que não lhes queriam dizer.”
“Uma ideia que se instala em uma cabeça em breve se torna uma resolução. E uma resolução só nos deixa em paz quando a pomos em prática.”
“Para cuidar direito dos homens é preciso amá-los bastante.”

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Pequeno Príncipe

Meus trechos preferidos do livro O Pequeno Príncipe...
“As pessoas vêem estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas. Para o empresário, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém terás estrelas como ninguém as teve...”
“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem.”
“Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo.”
“É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar.”
“Num mundo em que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo. O que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar.”
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz.”
“Os homens do teu planeta cultivam 5 mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles procuram poderia ser encontrado numa só rosa, ou num pouco de água. Mas os olhos são cegos, é preciso ver com o coração.”
“É preciso que eu suporte 2 ou 3 larvas se quiser conhecer as borboletas.”
“Os homens não tem mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.”
Lições eternas, lições de vida.