terça-feira, 26 de março de 2013

Feliz Páscoa... no seu verdadeiro sentido

Estamos mais uma vez chegando na época de Páscoa. O mais importante é entendê-la no seu real significado, que talvez pela difusão da midia esteja mais comercial e, digamos, material do que deveria ser.
Pessoas se aglomeram nas lojas disputando, a empurrões, os últimos ovos da promoção, porque sem eles, não existe comemoração em suas famílias e afinal de contas o que os outros diriam...
Será que já pararam para pensar na profundidade dessa data? Será que já se propuseram a ressuscitarem para uma Nova Vida? Uma vida de aprendizagem, troca, doação, respeito e compreensão para consigo e com o próximo.
Deixem penetrar em seus corações um pouco do amor incondicional a que tudo contagia. Páscoa é época de reflexão, de buscar no âmago do nosso ser a Verdade que existe em todos nós e que só está esperando uma atenção para despertar.
Vamos olhar tudo com uma visão mais ampla.Vamos deixar a luz penetrar e nos esforçar para mudar um pouco que seja a cada dia. Então sim, estaremos mais próximos do que Ele nos ensinou e faremos a nossa Páscoa não uma vez por ano, mas o ano inteiro, a vida toda.
FELIZ PÁSCOA... no seu verdadeiro sentido.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Centenário de Rubem Braga

Há 100 anos nascia em Cachoeira de Itapemirim Rubem Braga. Nesse fantástico texto abaixo, ele nos mostra o desejo de todo escritor.
"Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse: - Ai meu Deus, que história mais engraçada!
E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre.
Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria: - Mas essa história é mesmo muito engraçada!
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse - e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse: - Por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!
E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago - mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: - Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina.
E quando todos me perguntassem: - Mas de onde é que você tirou essa história? Eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: - Ontem ouvi um sujeito contar uma história...
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro."
Rubem Braga

domingo, 9 de dezembro de 2012

Oficina de contação de histórias

Oficina que irei ministrar aqui no Rio.

sábado, 10 de novembro de 2012

Vento

É a árvore que balança suas folhas num desastroso balé, é o jornal voando pela calçada, é a moça que passa segurando o vestido.
A sensação de um sopro gostoso invadindo nosso corpo, nossa vida, nossa alma, trazendo recordações de outras ventanias, trazendo lembranças boas como aquele sopro de felicidade que nos toma conta.
Pensar nas pessoas que nos são queridas, conhecidas ou não. O que estariam fazendo neste momento? Os passeios em dias frescos pela cidade, descobrindo coisas que não vemos em dias comuns, coisas simples, importantes, que passam despercebidas na correria do dia a dia.
É a magia do fim de semana, do feriado, das férias, de podermos olhar as plantas com seu suave balanço num ritmo calmo e mágico. Ouvir o som que elas produzem ao serem acariciadas e envolvidas pelo vento.
Olho para baixo e vejo uma formiga perdida num degrau de escada, tão perdida como um grão de poeira ao vento.
Poder invadir misteriosamente aquele outro mundo, que na verdade faz parte do nosso grande mundo. É como se o vento nos mostrasse tudo isso que não vemos por pura falta de tempo. Como se ele despisse a cidade, revelando toda a sua intimidade.
Existem alguns dias que temos vontade de guardá-los em uma garrafa e ir abrindo aos poucos, para saboreá-los com muita calma, sem pressa de viver.
Autoria de Alessandra Mourão

sábado, 25 de agosto de 2012

A história se repete ou Quem é irracional?

1876. Período de escravidão no Brasil. Fazenda Santa Helena. O sol ainda não surgiu e ele já está acordado. Começa mais um dia de trabalho. O calor é forte, a água escassa, mas ele continua a labuta diária.
Hora do almoço. Recebe uma papa mal cheirosa. Come com vontade em qualquer canto, até pelo chão sujo.
De volta ao trabalho. O sol escaldante não dá trégua. Calor, muito calor. O cansaço toma conta do seu corpo, agora já mais fraco. Uma parada para respirar. Ouve-se o barulho do chicote no seu lombo. Mais uma ou duas vezes e começa a sangrar. Logo as moscas chegarão.
De volta ao trabalho exaustivo. Longas jornadas ininterruptas. Tudo por um punhado de comida.
A história se repete
Época atual. Cidade do Rio de Janeiro. O sol ainda não surgiu e ele já está acordado. Começa mais um dia de trabalho.
Latas de alumínio, papelão, plástico, vidro. Se tiver sorte poderá achar ferro ou cobre. Todos esses materiais são vendidos e reciclados.
O sol brilha imponente no céu, verão, calor forte. Hora do almoço. É a primeira refeição que entra no seu estômago hoje. Pouca quantidade, fome voraz.
De volta ao trabalho. Ele já andou vários quilômetros. Tem muita coisa para carregar, mas ele ainda vai levar mais. O calor já aumentou muito nessa altura da tarde. O sol parece torrar os seus miolos, a água é escassa.
Uma parada para respirar. Ouve-se o barulho do chicote. Na mesma hora, Tito, o cavalo, com as patas trêmulas de exaustão, continua puxando a charrete carregada de sucata. Trabalhando o dia todo em troca de comida. Ele não reclama, não xinga, não rouba, não mata o seu semelhante. Merece dignidade e respeito.
Quem é irracional?
Autoria de Alessandra Mourão

sábado, 11 de agosto de 2012

Louco

Louco. Todos são
Todo mundo já chamou alguém de louco. Fazemos isso, mas no fundo, sabemos que não são. É uma maneira de dizer que o outro fez algo diferente, fora dos padrões, além do esperado. Geralmente, são coisas ruins. Ruins para a gente, para o louco, talvez não.
Existem pessoas de todos os tipos: sãs, neuróticas, saudáveis, doentes, honestas, desonestas. Essas pessoas não convivem com a gente? Quem disse? Pode ter certeza que estão por aí e nem percebemos.
O louco não tem coerência. Mas algum louco deveria ter? Conversas sem sentido jogadas ao vento. Alguém conversa com sentido nesse mundo? Comecem a reparar nas conversas dos outros ao celular. E até nas suas. E um tal de falar que está num lugar e, na verdade, está em outro; que já vai chegar e ainda falta muito para o destino final; que ficou preso no engarrafamento, contudo, milagrosamente, o trânsito está livre.
Ouvimos por aí as maiores barbaridades, a sociedade já até estipulou que essas tais barbaridades são normais. Ah, então tá.
Ninguém gosta de conversar com um louco, já que ninguém considera a si mesmo como louco e logo não há uma reciprocidade com o tal do louco. Que loucura! A conversa do louco também não bate com a do seu interlocutor. Logo é cada um falando de um assunto diferente. Mas espera aí! Briga de casal não é assim? O que? Não é só quando brigam, não?
Um louco exaspera a verdade. Ele a coloca para fora aos jorros, sem se importar se você quer ouvi-la ou não. Ele não está nem aí, nem aqui e, se bobear, nem lá. Muitas dessas verdades ninguém quer ouvir, algumas estão bem na nossa cara, são até necessárias, mas todos fingem que não as veem.
Todos têm um pouco de louco, um dia de loucura, de sair da rotina, das regras impostas pela sociedade, de fazer diferente pelo menos uma vez. Loucura também pode ser sinônimo de uma coisa maravilhosa. Coisa louca, mas num sentido bom. Aí todo mundo quer. Espertinhos, não!?
No fundo você acaba se perguntando: quem sou eu? quem é você? e quem somos nós? Que papo louco!
Louco. Todos não são.
Autoria de Alessandra Mourão

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Telefonema

Eu já havia colocado esse texto anos antes, aqui no blog, mas o blogspot apagou várias postagens minhas, então estou colocando novamente.
Telefonema
Eduardo – Alô! Oi, sou eu de novo.
Regina – A ligação caiu e...
Eduardo – Onde paramos?
Regina – Estávamos falando que...
Eduardo – Sim, sim, já tem 3 anos. É um tempinho legal, não acha?
Regina – Acho, mas...
Eduardo – Afinal, muita coisa acontece em 3 anos. Se você tivesse ficado grávida, a criança já estaria andando e tal. O tempo passa muito rápido. Você concorda?
Regina – Passa sim, agora...
Eduardo – Nem acredito, parece que tô sonhando.
Regina – Olha, não é um sonho, eu...
Eduardo – Tem certeza de que não é sonho? Podemos estar dormindo nesse exato momento.
Regina – Tenho certeza absoluta.
Eduardo – Absoluta?
Regina – Absoluta.
Eduardo – Ah, sabe tô tão emocionado. Se desse pra ver meu rosto pelo telefone, você veria as lágrimas nos meus olhos.
Regina – Imagino, eu...
Eduardo – Está prestes a se tornar realidade. Isso é bom, né?
Regina – Muito bom, mas vamos...
Eduardo – Acho que hoje é o dia mais feliz da minha vida. E você faz parte dele. São muito bons esses momentos felizes. Você lembra de algum momento assim da sua vida?
Regina – Lembro de alguns...
Eduardo – Eu lembro quando fui promovido no meu primeiro emprego. Fiquei seis meses esperando essa promoção. Foi uma satisfação enorme, igual a que tô sentindo agora. Você está emocionada?
Regina – Não sou de ferro, também fico emocionada.
Eduardo – Três anos! Foram três anos. Parece que foi ontem, ainda me lembro muito bem do primeiro dia. Era o final do campeonato.
Regina – Vocês homens associam tudo ao futebol.
Eduardo – Não lembra do primeiro dia?
Regina – Lembro sim, era um domingo, eu trabalhei...
Eduardo – Você lembra! Sabia! Que lindo. Fiquei emocionado de novo. Vou chorar.
Regina – Não, por favor...
Eduardo – Mas eu tô sentimental hoje, alegre, feliz, sei lá, droga. Tem alguma palavra que signifique mais do que alegre, do que feliz?
Regina – Radiante.
Eduardo – Estou radiante nesse dia histórico. É um dia histórico, né? Finalmente! Obrigado por fazer parte disso.
Regina – Imagina...
Eduardo – Modéstia?
Regina – Mas...
Eduardo – Três anos, nossa. Já é hora mesmo. Quando eu tô feliz, acabo falando demais. Vou me controlar, prometo. Agora fala você. Fala, vai.
Regina – Sim senhor, obrigado por manter contato conosco. Só um momento. Vou estar transferindo a sua ligação para o gerente geral. Por favor aguarde na linha.
TU TU TU TU TU
Eduardo – Ih, caiu a ligação. Não!!
Autoria de Alessandra Mourão